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O ROMBO NAS CONTAS PÚBLICAS TEM ENDEREÇO — E NÃO É O DO APOSENTADO

Por Reinaldo Barbosa 03/08/2026 4 min de leitura
O ROMBO NAS CONTAS PÚBLICAS TEM ENDEREÇO — E NÃO É O DO APOSENTADO
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Toda vez que o noticiário anuncia rombo nas contas públicas, a mesma solução volta à mesa: desindexar o salário mínimo. Na prática, isso significa romper o elo que hoje protege o valor real de aposentadorias, pensões e benefícios como o LOAS.

O alvo de sempre é o mesmo: o idoso, a pessoa com deficiência, o trabalhador que vive de um salário mínimo.

Parece que o Brasil quebra porque um aposentado recebe o suficiente para comprar remédio. Mas será mesmo essa a origem do problema?

Enquanto se discute retirar direitos de quem mal sobrevive, raramente se enfrenta, com a mesma disposição, os privilégios que existem dentro da própria máquina pública. Um dos capítulos mais expostos está no Judiciário — justamente o poder do qual a sociedade espera o maior compromisso com a Constituição e com a moralidade administrativa.

O teto constitucional está fixado em R$ 46.366,19, valor equivalente ao subsídio de ministro do STF. É esse número que, por Constituição, deveria limitar a remuneração de qualquer agente público, sem exceção. Só que, na prática, esse teto vem sendo furado ano após ano por verbas batizadas de “indenizatórias” — os chamados penduricalhos.

Um levantamento da Transparência Brasil em parceria com a República.org, divulgado em março de 2026, mostrou o tamanho do problema: dos 15.020 magistrados com contracheque analisado, 13.215 receberam pelo menos R$ 100 mil em pagamentos acima do teto ao longo de 2025 — e em 3.819 casos esse valor extra ultrapassou R$ 1 milhão no ano. No topo do ranking nacional, um desembargador do Tribunal de Justiça de Minas Gerais somou R$ 2,2 milhões em penduricalhos em 2025, média de R$ 186,4 mil por mês, enquanto seu salário-base — esse sim sujeito ao teto — era de R$ 41,78 mil.

Diante desses números, a pergunta precisa ser feita sem meias palavras: é moralmente sustentável exigir sacrifício de quem vive com um salário mínimo, enquanto parte da elite do funcionalismo embolsa, em um único mês, o equivalente a anos de aposentadoria de um trabalhador comum?

Não é exagero retórico, é aritmética. Desindexar o salário mínimo significa, na vida real, que o aposentado vai comprar menos comida e menos remédio, que a pessoa com deficiência vai sentir o peso na renda que já é modesta, e que o ajuste fiscal — que essas pessoas não criaram — será pago por elas.

O próprio Supremo Tribunal Federal reconheceu, em julgamento concluído em março de 2026, que o teto constitucional é absoluto e que verbas indenizatórias só podem existir com previsão legal expressa, limitadas a 35% desse valor. É um avanço tardio, mas mostra que até dentro do Judiciário já se admite que o problema é real e precisa de correção.

Fica, então, a pergunta que realmente interessa: o rombo das contas públicas está mesmo em quem recebe o mínimo para sobreviver?

Ou está também nos privilégios, nas renúncias fiscais generosas ao grande empresariado, na corrupção, nas estruturas administrativas infladas e em benefícios que nada têm a ver com a realidade da maioria dos brasileiros?

Equilíbrio fiscal é necessário — ninguém de bom senso discorda disso. Mas ele só será legítimo quando alcançar todos os setores da administração pública, sem exceção, e sem transformar aposentados, pessoas com deficiência e trabalhadores de baixa renda em bode expiatório de uma conta que não fecharam.

Antes de cortar direito de quem vive com o mínimo, o Brasil precisa ter a coragem de olhar para cima. Porque justiça fiscal só existe quando o exemplo começa por quem exerce o poder.

Reinaldo Barbosa
Advogado e colunista

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Reinaldo Barbosa
Sobre o autor

Reinaldo Barbosa

Advogado, consultor político e especialista em Direito Previdenciário, Reinaldo Barbosa reúne mais de 30 anos de experiência na atuação política e institucional. Ao longo de sua trajetória, assessorou partidos políticos, candidatos e lideranças em campanhas eleitorais, contribuindo com estratégias, planejamento e análise do cenário político. Paralelamente à atuação jurídica, consolidou-se como especialista em questões previdenciárias, oferecendo orientação técnica e acompanhamento de processos relacionados ao Direito Previdenciário, sempre pautado pela segurança jurídica e pelo compromisso com seus clientes. Apaixonado por política, comunicação e análise de conjuntura, Reinaldo também se destaca como articulista. Há muitos anos publica textos e reflexões em suas redes sociais, abordando temas ligados à política, cidadania, legislação e aos acontecimentos que impactam o cotidiano da sociedade.

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