Há um mês, em meio a um país dividido em dois extremos políticos, ainda existia um lugar onde o Brasil voltava a ser um só. Bastava a bola rolar por alguns minutos, desapareciam as trincheiras, silenciavam-se os discursos e milhões de brasileiros vestiam a mesma camisa, gritavam o mesmo gol e alimentavam o mesmo sonho. A Copa do Mundo ainda era o último templo da nossa rara unanimidade.
A nossa “camisa amarelinha”, tão respeitada mundialmente em tempos idos, deixou de ser uma peça roubada por um partido político e voltou a ser de todos os brasileiros e brasileiras.
Foi essa unanimidade que nos roubaram.
Não foi apenas a derrota para a Noruega, nas oitavas de final, por 2 a 1. Dentro de campo, perdemos porque jogamos menos. A derrota foi legítima. O que dói é perceber que ela era apenas o capítulo mais recente de uma decadência anunciada.
Depois do traumático 7 a 1 de 2014 para a Alemanha, qualquer país que levasse o futebol a sério teria reconstruído suas bases. O Brasil preferiu esconder a ferida em vez de tratá-la. Vieram as quartas de final em 2018, a eliminação nos pênaltis em 2022 e, agora, a pior campanha em uma Copa do Mundo em trinta e seis anos. Não é azar. É consequência.
Porque nenhuma seleção é maior do que a instituição que a dirige. E a história recente da CBF é uma sucessão de nomes e escândalos: Ricardo Teixeira, Marco Polo Del Nero, Rogério Caboclo e Ednaldo Rodrigues — cada um afastado, banido ou destituído por denúncias distintas. Agora é a vez de Samir Xaud, atual presidente, alvo de denúncia do jornalista Leo Dias de que teria usado dinheiro da CBF para custear viagens da esposa e de uma suposta amante durante a própria Copa — acusação que a entidade nega, mas que os fatos ainda não esclareceram por completo.
Enquanto o torcedor investe sua paixão, seu tempo e seu dinheiro, a entidade parece investir apenas na própria sobrevivência. Diante desse cenário, recorre-se sempre ao mesmo remédio: culpa-se o treinador, corta-se-lhe a cabeça e contrata-se um novo técnico. O conforto com o erro não é novidade, e a cura para a incompetência foi buscada na importação de um remédio pronto: Carlo Ancelotti. Mas não existe treinador, por maior que seja, capaz de erguer uma casa sobre um alicerce rachado. Contratar um grande nome resolve manchetes. Não resolve estruturas.
Talvez o maior prejuízo nem seja a eliminação. O mais triste é perceber que a última paixão capaz de unir um país profundamente dividido foi sendo consumida pela incompetência, pela vaidade e pela falta de compromisso de quem deveria protegê-la.
Roubaram-nos mais do que uma Copa. Roubaram a inocência de acreditar que o hexa estava ao alcance. Roubaram a alegria simples de reunir famílias e amigos em torno de uma única esperança. Roubaram, sobretudo, o direito de, por noventa minutos, esquecermos todas as nossas diferenças para sermos apenas brasileiros.
Que esta não seja apenas mais uma lamentação por uma Copa perdida, mas uma cobrança em defesa de um patrimônio que pertence ao povo, e não aos dirigentes de ocasião. Enquanto a CBF não compreender essa verdade, cada eliminação carregará duas derrotas: a do placar e a da esperança.
Reinaldo Barbosa
Advogado
Colunista



