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Quando uma lei precisa ser lembrada todos os anos

Paganini Júnior 16/07/2026 5 min de leitura
Quando uma lei precisa ser lembrada todos os anos
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Há discussões que deveriam existir apenas uma vez.

O Poder Legislativo aprova uma lei, o Executivo a sanciona, a administração pública a cumpre e a sociedade segue em frente. É assim que se espera o funcionamento de um Estado organizado.

Mas nem sempre é assim.

Em Ituiutaba, a velha discussão sobre a valorização dos professores voltou ao plenário da Câmara Municipal. Não porque surgiu uma nova lei. Não porque apareceu uma nova reivindicação. O que voltou ao debate foi justamente uma legislação que existe há mais de quinze anos: a Lei Complementar nº 103, de 2011.

Professores ocuparam as galerias da Câmara para acompanhar a votação da inclusão da lei na Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027. Na visão da categoria, esse seria mais um passo para assegurar o cumprimento do piso salarial e do plano de carreira previstos na legislação municipal.

A votação, entretanto, não aconteceu. Um pedido de vista adiou a análise da matéria.

Na democracia, o pedido de vista é um instrumento legítimo. Serve para que vereadores estudem melhor uma proposta antes de votar. Não há ilegalidade nisso.

Mas a política também é feita de símbolos.

Quando um assunto retorna ao plenário repetidas vezes, deixa de ser apenas uma questão técnica. Passa a transmitir uma mensagem para quem acompanha a vida pública.

E a mensagem que muitos professores levaram para casa foi a de que sua reivindicação, mais uma vez, ficou para depois.

É importante dizer que há argumentos dos dois lados.

Os profissionais da educação afirmam que a Lei Complementar nº 103 precisa ser cumprida integralmente e sustentam que existem decisões judiciais reconhecendo direitos decorrentes dessa legislação. Para eles, não se trata de pedir um benefício novo, mas de exigir o cumprimento de uma norma aprovada pelo próprio município.

Já a Prefeitura costuma defender que qualquer alteração permanente na estrutura remuneratória precisa observar os limites impostos pela Lei de Responsabilidade Fiscal e a capacidade financeira do município. Também sustenta que reajustes e impactos na carreira exigem planejamento orçamentário para preservar o equilíbrio das contas públicas.

Nenhuma dessas posições pode ser ignorada.

Valorizar o professor é um dever constitucional.

Administrar com responsabilidade fiscal também é.

O problema começa quando esses dois princípios deixam de caminhar juntos e passam a disputar espaço todos os anos.

É justamente nesse ponto que a discussão deixa de ser jurídica e passa a ser administrativa.

Uma cidade não pode conviver indefinidamente com dúvidas sobre uma lei que ela mesma aprovou. Se há interpretações diferentes, cabe às instituições buscar uma solução definitiva. Se a lei precisa ser aperfeiçoada, que seja debatida com transparência. Se precisa ser cumprida integralmente, que isso aconteça. O que não parece razoável é transformar um assunto permanente em um conflito permanente.

A insegurança jurídica não interessa a ninguém.

Ela não interessa ao professor, que vive sem saber exatamente quais direitos serão reconhecidos.

Não interessa ao gestor, que administra sob o risco constante de novas ações judiciais.

Não interessa ao Legislativo, que passa a discutir, ano após ano, um tema que deveria estar consolidado.

E certamente não interessa aos alunos, que esperam ver a educação tratada como prioridade e não como motivo recorrente de impasses.

Talvez o aspecto mais importante dessa sessão da Câmara não tenha sido o pedido de vista, nem mesmo o adiamento da votação.

O fato mais relevante foi outro.

Os professores estavam lá.

Compareceram, acompanharam os debates, manifestaram suas posições e exerceram um direito garantido pela democracia. A presença deles mostra que ainda acreditam nas instituições e esperam que elas ofereçam respostas.

Agora, cabe às próprias instituições corresponderem a essa confiança.

O Executivo precisa apresentar, de forma clara e transparente, quais são os obstáculos para cumprir aquilo que os professores entendem ser um direito.

O Legislativo tem a responsabilidade de analisar a matéria com independência, fundamentando sua decisão perante a população.

E a sociedade deve acompanhar esse debate sem paixões políticas, porque a valorização da educação não pertence a um governo, a um partido ou a um mandato.

Pertence ao futuro da cidade.

No fim, talvez a principal pergunta não seja quem tem razão nesta disputa.

A pergunta que realmente importa é outra.

Como uma lei aprovada pelo próprio município há mais de quinze anos continua sendo motivo de controvérsia entre Prefeitura, Câmara, professores e Justiça?

Enquanto essa resposta não vier de forma definitiva, a sensação será sempre a mesma: muda o calendário, muda o governo, muda a composição da Câmara, mas a discussão permanece.

E quando um problema atravessa tantos anos sem solução, ele deixa de ser apenas um problema jurídico.

Passa a ser, sobretudo, um problema de gestão pública.

Paganini Júnior
Sobre o autor

Paganini Júnior

Mário Paganini Junior é consultor político, publicitário. Apresentador e coordenador do Microfone Aberto, atua na produção de conteúdo sobre política, economia e os principais acontecimentos de Ituiutaba e região, com foco em informação de qualidade e credibilidade.

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