Anuário da Segurança Pública revela queda histórica dos homicídios, mas expõe o avanço dos golpes digitais, do feminicídio e da sensação de impunidade.*
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, traz uma boa notícia em meio a um cenário ainda preocupante. O Brasil registrou a menor taxa de mortes violentas intencionais desde o início da série histórica. Foram 40.775 vítimas, uma redução de 8,2% em relação a 2024. Nos homicídios dolosos, a queda foi de 10%, permitindo ao país atingir, dois anos antes do previsto, a meta do Sistema Único de Segurança Pública.
É um resultado importante, mas insuficiente para traduzir a realidade vivida pelos brasileiros.
Os dados do Anuário caminham na mesma direção das principais pesquisas eleitorais realizadas neste ano. Quando perguntados sobre os maiores problemas do país, os brasileiros continuam colocando a violência e a corrupção entre suas maiores preocupações.
Não é difícil entender por quê.
A criminalidade mudou de endereço. Se antes o medo estava nas ruas, hoje também está no celular, nas redes sociais, nos aplicativos bancários e, muitas vezes, dentro da própria casa. O crime evoluiu, mas o Estado continua reagindo lentamente.
O golpe agora cabe na palma da mão
As fraudes digitais tornaram-se o crime patrimonial mais comum do país.
Em 2025 foram registradas 2,2 milhões de ocorrências, mais de 250 golpes por hora, crescimento de cerca de 400% desde 2018. A taxa nacional chegou a 1.059 registros por 100 mil habitantes, superando inclusive a dos Estados Unidos.
Mas a realidade provavelmente é ainda pior. Pesquisa realizada neste ano mostrou que aproximadamente 26 milhões de brasileiros afirmaram ter perdido dinheiro em golpes pela internet nos últimos doze meses.
Clonagem de cartões, golpes pelo WhatsApp e falsos funcionários de bancos fazem parte do cotidiano. E o que mais preocupa é a sensação de impunidade. Apenas uma pequena parcela dos registros chega efetivamente ao Judiciário, transmitindo ao criminoso a impressão de que o risco de punição é mínimo.
A violência que continua dentro de casa
Outro dado alarmante é o feminicídio.
Em 2025, o Brasil registrou 1.571 mulheres assassinadas por razão de gênero, o maior número da última década. Em 62% dos casos, o crime ocorreu dentro da residência da vítima. Em 78%, o autor era o companheiro ou ex-companheiro.
Isso significa que, para milhares de mulheres, o lugar onde deveriam encontrar proteção continua sendo justamente o mais perigoso.
O verdadeiro desafio
Na minha avaliação, o maior problema revelado pelo Anuário não está apenas nos números, mas no que eles representam.
O brasileiro percebe que o Estado perdeu capacidade de acompanhar a velocidade da criminalidade. Enquanto organizações criminosas utilizam tecnologia, movimentam dinheiro em segundos e criam novas formas de fraude diariamente, a investigação continua lenta e excessivamente burocrática.
Na violência doméstica, a situação também preocupa. Grande parte dos feminicídios é antecedida por ameaças, denúncias ou medidas protetivas que não conseguem impedir o desfecho trágico. Isso demonstra que boas leis, sozinhas, não bastam. É preciso fazê-las funcionar.
Há ainda outro aspecto que não pode ser ignorado. Violência e corrupção aparecem lado a lado nas pesquisas porque produzem o mesmo efeito sobre a população: a perda da confiança nas instituições.
A corrupção retira recursos da segurança pública, enfraquece a capacidade do Estado de investir em inteligência, tecnologia e investigação. A violência ocupa esse espaço. Uma alimenta a outra.
Por isso, combater o crime exige mais do que operações policiais. Exige gestão eficiente, integração entre os órgãos de investigação, tecnologia, rapidez na Justiça e, principalmente, a certeza de que a lei será aplicada sem privilégios.
O Brasil conseguiu reduzir parte da violência das ruas. Agora precisa enfrentar a violência que invade os celulares, destrói famílias dentro de casa e alimenta diariamente a sensação de impunidade.
Porque, no fim das contas, os homicídios caíram. O medo, infelizmente, ainda não.
Reinaldo Barbosa




